Nos anos 60/80, trabalhava na Cimento Irajá S/A, na Av. Meriti, em Parada de Lucas, RJ. Exceto em alguns dias, quando as obrigações profissionais impunham, costumava vir para casa, em Campo Grande, às 17:00 hs, chegando pouco antes das 18:00 hs. Era comum uma passada no Rio da Prata, na casa de Selma Regina Martins Muniz, na época, namorada, noiva e hoje esposa, lá se vão quase 4 décadas. Meu sogro – João Martins, era caminhoneiro e negociava com minerais para construção em seu basculante Chevrolet azul, que costumava ficar estacionado no Largo do Rio da Prata, após sua chegada, enquanto ele fazia compras e batia um bom papo com os amigos, no armazém do Albano, Bar do Ênio, do Carvalho ou mesmo na praça. Certa vez perguntei a ele sobre a administração de seus negócios. Mais precisamente, se havia períodos sem trabalhos e outros acima da capacidade de atendimento. Ele respondeu que a praça era uma espécie de escritório onde se realizavam os pedidos, pagamentos e outros. A praça era o “ponto” do caminhoneiro, mas que havia faltas num período e excessos em outro. O que ele e outros amigos faziam era a passagem de algum pedido, tanto dele para outros, como de outros para ele, contrabalançando as capacidades mútuas. Constante presença na praça era a de “Preá”, um trabalhador braçal autônomo muito chegado à “marvada”, que capinava, limpava e fazia outros serviços correlatos à sua atividade de trabalhador braçal em proveito para todos. Com serviços e mais serviços solicitados, ele poderia faturar uns trocados para melhorar sua vida, mas nada. Nem banho tomava, acusado pelo fétido das roupas maltrapilhas, por conta da "marvada" propiciada por um serviço ou outro. Preferia o papo o dia inteiro nos bares e na praça, como se fosse um sitiante para quem a natureza se encarregava da produção de mangas, goiabas, caquis e outros produtos agrícolas. Ao passar de automóvel pela praça, avistei Preá e gritei pelo seu apelido. Um amigo próximo me advertiu de possível encrenca com ele, que não admitia esse nome. A surpresa do amigo foi maior, quando Preá, sorridente veio a meu encontro e meu amigo disse “ele mudou” e eu retruquei. Apenas silalisei com os dedos que haviam duas doses de goró pagas no Albano! ele, bem entendendo, nem chegou à nossa presença, indo direto tomar a pinga.
Se Campo Grande sempre manteve certa independência com o Centro do Rio de Janeiro, o Rio da Prata, sem tirar nem por, agia da mesma maneira com outras localidades de Campo Grande. Por esse tempo, Campo Grande era conhecido como “cidade dormitório”, pela grande massa de trabalhadores que exerciam seus ofícios no centro da cidade, consumindo as horas, normalmente de ócio, pelo infernal trânsito rodoviário/ferroviário, necessário para se vencer os 100 k de ida e volta ao trabalho, daí o nome “dormitório”, porque, durante a semana, saía-se cedo e retornava-se tarde, praticamente em horário de dormir, e uma minoria continuava atrelada à produção rural. Essa, raramente saia de Campo Grade, o que acontecia – e ainda acontece no Rio da Prata. A renda provinha da produção se seus sítios e de investimentos realizados por seus ancestrais em tempos remotos, em imóveis e outros ativos fixos, que completavam os rendimentos familiares. Na verdade, conhecia o Rio da Prata à noite, durante a semana e o dia inteiro, nos finais de semana. Determinado dia, ao faltar ao serviço na parte da manhã, por motivo de sepultamente de parente e, indo almoçar na casa de meus sogros, encontrei na praça e nos bares do Rio da Prata, as mesmas pessoas e atividades de sempre: papos amistosos, jogos de carteado, sempre acompanhados de cerveja, refrigerante ou pinga mesmo e também, meia dúzia de mulas amarradas nos suportes existentes na praça. Embora de passagem, indaguei aos amigos presentes sobre a propriedade dos burros, ouvindo que dois deles eram de uma anciã que morava sozinha e produzia bananas no alto da Serra de Meu Deus, por onde passava tubulação de água para abastecer a Fábrica de Tecidos Bangu, acima da cota 100 do Morro do Rio da Prata. Posteriormente, já casado, fomos em turma ao alto do morro para visitar a anciã, não a encontrando em casa, mas passando o dia na casa de Zezinho Viana, parente de minha esposa, que de forma maravilhosa, nos proporcionou verdadeira delícia, nos servindo café de produção própria, torrado em forno caipira e socado em pilão, acompanhado de mandiocas tiradas do chão por nós e fritas em fogão à lenha, sob uma pedra arqueada, que servia de proteção contra chuva e sol. Fritas, elas eram tão tenras, que pareciam catupiry! O entorno era maravilhado por avencas e outras plantas ornamentais, apropriadas ao ambiente sombrio daquela região. Muita coisa de meus jardins e de amigos, provém de lá. Depois se conversou sobre a anciã e seus trabalhos. De posse das bananas, ela amarrava as caixas vazias no lombo dos animais e as carregava, uma a uma. Pronta a carga, ela simplesmente, dava uma palmada no traseiro do burro que estivesse à frente, e eles, como bem entendendo as ordens, seguiam em grupo até a praça, no Largo do Rio da Prata, onde se prostravam como de costume, em tropa, ao lado do amarradouro, à espera da anciã ou algum benfeitor que os amarrassem e alimentassem.
Num fim de semana, estando no açougue do Sr. João, a anciã, dizendo que devido à chuva, ainda não havia vendido nada e que precisava de um bife de filé, com 100gs, negado pelo açougueiro que só vendia o mínimo ½ k. Eu e meu sogro ficamos constrangidos. Na minha frente, um caseiro acabara de receber 2k de alcatra, que ele fazia questão de repetir que era para os cachorros do juiz. Fiquei na minha! Na minha vez, entreguei o pedido e acrescentei ½ k de filé, cortado em bifes finos (a anciã havia me dito que estava adoentada e com os dentes debilitados, só conseguindo mastigar carne macia e fina). Neste momento, anotei os preços da tabela exposta que apliquei ao pedido, apurando o valor a pagar, preenchendo o cheque e efetuando o pagamento. Como de costume, havia grande diferença entre o pedido e o fornecido. Era um sábado, com muita gente no açougue. Meu sogro e outros deram sorrisos tímidos. Sr. José, de imediato, reclamou a falta de dinheiro e eu rebati “Paguei integralmente o pedido feito". A diferença referida pelo senhor é questão sua, pois não admito a alteração considerável nos pesos solicitados, como sempre tem ocorrido. Perplexo diante de cliente substancial, tentou alguma explicação, sendo cortado por minha saída abrupta. Já fora de seu estabelecimento, ele gritou. E o filét? Se o senhor foi imoral com sua cliente, posso sê-lo com o senhor e fui saindo, ficando o dito pelo não dito.
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