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MUSEU DE CAMPO GRANDE - minha infância em Capoeiras

PostDateIcon Seg, 05 de Setembro de 2011 17:18 | PostAuthorIcon Author: gilberto | PDF Imprimir E-mail

Nossa casa definitiva na Rua Jiçara, 428, Centro de Campo Grande, não me lembro bem,  se já havíamos nos mudado ou se ainda estávamos morando na casa provisória no meio do terreno da propriedade de meus avós maternos, na Rua Aricuri, em Capoeiras.  A testada do terreno era cercada  por arame e colunas de madeira.  Do lado de dentro do imóvel, bem no rumo fronteiriço, havia 3 ou 4 pés de buchosa”, era como conhecíamos o nome daqueles frutos  avermelhos e exóticos, diferentes, de massa compacta e ligeiramente doce,  sabor mais para neutro do que outra coisa.

A cor diferente combinava com o também diferente formato ovalisado no meio mas  com uma extremidade pontiaguda, diferentes do grão do café, praticamente areddondado.  O formato das folhas também lembrava as do pé de café, inclusive na espécie e tamanho do arvoredo.  O fato é que antes de amadurar, a cor dos frutos era a do barro ou tijolo, como se conhece mais amiúde. O visual mudava, contrastando o verde das folhas com a cor berrante dos frutos madurecendo, anunciando a proximidade da colheita. A pouco e pouco, conforme amadurecia, a consistência mudava de dura como fruto da amendoeira, para a forma mais macia como  a dos morangos.  Se numa mastigada de morango, laranja ou caju, por exemplo,  a sensação é a de 95% de líquido escorrendo pela boca e só 5% concentrado, na da buchosa, a parte liquida era meio a meio com a concentrada, mas continuava macia.

Na idade adulta, quando encontrei esses frutos à venda numa  banca de feira livre em Campo Grande, o nome que ostentava era “Cereja do Perú”, mas nunca me interessei em pesquisar o assunto. Em determinado dia estávamos eu, com 5 anos, meu irmão Adalberto Antônio Muniz, 7 e nossa prima, Theresa,  filha de Domingo Carvalho, eximio tocador flauta de bambu, cuja idade regulava a nossa. Meu avô José de Carvalho, trabalhava na UFRRJ, em Itaguai, hoje, Município de Seropédica, sendo exímio agricultor, inclusive quanto aos enxertos. Havia uma planta ornamental com vários galhos enxertados, de tal modo que mostrava uma variedade grande de flores e cores diferentes. Havia também enxertos de frutas, como limão e outras. A cana era do tipo “caiana”, macia, doce e maravilhosa.

Minha avó Antolina Maria da Conceição, era a personificação da pureza,  delicadeza, grandeza de espírito, bondade e pessoa que, mesmo com poucos recursos, mantinha a casa alegre, farta e agradável,  por sua sutileza e vasta experiência na cozinha e no trato amável com as pessoas. Naquela época os tempos eram difíceis, com dinheiro curto e a padaria longe e poucas variedades à venda.  Nos cotidianos das “tocadas” em sua casa, o lanche era sempre primoroso, preparado em fogão à lenha.  As compras eram mensais, na Venda do Diogo. Os gêneros eram em latas de 20 kg, de gordura (banha) ou manteiga, por exemplo.  Assim, conforme se aproximava o final do Mês, os gêneros rareavam, dificultando a preparação dos petiscos para o café da tarde. Os frequentadores eram em sua imensa maioria irmãos de meu avô ou parentes próximos, havendo bastante intimidade comum, sendo  verdade que muitas frequentadores assíduos das tocadas, traziam de casa, ramas de aipim, batata doce, fruta pão  e outros para a preparação do café, para 5 ou 15 pessoas de fora - músicos e platéia, como era de costume. 

No entanto, às vezes, acontecia a falta de gêneros para um preparo adequado dos petiscos. Se faltava o açúcar, o mel, melado ou rapadura  adoçava o café.  Se faltasse biscoito, pão ou farinha de trigo, o jeito era improvisar e fritar o “pelotão de feijão”, uma espécie de kibe, bolinho de arroz, torresmo e tantas outras guloseimas, que aquelas mãos abençoadas transformava de um nada, em  petiscos maravilhosos. Naquele fim de tarde, começavam a chegar os músicos, carregando violões, cavaquinhos, flauta, pandeiros, banjos, clarinetas, sax e outros, de modo que as atenções se voltaram para eles. Com a chegada de minha prima, nós três resolvemos comer buchosa, cujos arvoredos se mostravam avermelhados de tantas frutas apetitando a colheita.

Ao nos aproximarmos, vimos que os troncos estavam concentrados com lagartas, uma ao lado e em cima da outra, encobrindo totalmente a madeira do tronco, talvez aguardando o anoitecer para comer os frutos. Alguém teve a ideia  de removê-las, com o auxilio de pequenos galhos e amontoá-las no quintal. Em seguida, aproveitando o burburinho das pessoas, algum de nós apanhou uma garrafa de álcooal, despejando o líquido sobe o monte de lagartas, inclusive em minhas pernas. Bastou o acender do fósforo, para a explosão do combustível, que não poupou minhas pernas e as minha prima Teresa.  Naquele Deus nos acuda, alguém se lembrou de seguir até a Antiga Estrada Rio São Paulo, a menos  de 100 metros da casa, conseguindo desviar o “lotação”, que nos levou direto ao Hospital Rocha Faria, para o socorro imediato. [naquela época havia mais consideração e respeito para com o ser humano.  O lotação desviou sua rota, seguindo direto para o hospital, com todos os passageiros, sem parar uma única vez e sem reclamações].

Não lembro exatamente os detalhes da explosão e queimadura das pernas, embora, já adolescente, sempre ouvia relatos sobre o acidente.  Porém, o que se afigura nítido em minha memória são as “bolhas” estourando em minhas pernas, tal qual aquelas do arroz, quando aos momentos antes do término do cozimento. Outra lembrança são as cicatrizes das queimaduras, ainda à mostra hoje, aos 62 anos de idade. [A fotografia do lotação que ilustra o texto, mostra o itinerário Campo Grande – Rio da Prata, embora o veículo citado pertencesse a outra linha, que não me acorre nome, mas do outro lado de Campo Grande]

Gilberto José Muniz

Presidente da ACZO

Última atualização (Qui, 16 de Fevereiro de 2012 16:54)

 
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